Colunas > Outras ondas10/07/2008 - 14h48

Apocalipse amanhã

"Meu Deus, um dia todos surfarão!"
Por Fred D'Orey - officebr@totempraia.com.br
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Tenho pra mim que quando o campeão do mundo de 1964, Midget Farrelly, soltou sua famosa frase - "um dia todos surfarão", ele não quis dizer o que acharam que ele disse. Estou mais com uma segunda opção. Ele foi o grande profeta que acordou no meio da noite todo suado, ofegante, saindo de um pesadelo, e disse - "meu Deus, um dia todos surfarão!!". Ele acertou na mosca e olha o que andou acontecendo com o nosso amado esporte. Foram anos de guerra. E pensar que o movimento contra-evolucionário começou por causa de um dia de crowd em Padang Padang... Tudo bem que não foi um dia de crowd qualquer. Foram 97 cabeças naquele fatídico 10 de maio de 2008!! É muita gente.

Eu tava lá. Lembro que as poucas séries de três ondas passavam a cada 20 minutos e as pessoas nem remavam mais. Estavam todas atônitas com o crowd. De onde saiu tanta gente? No outside, os mais velhos, os mais experientes, os que já viram de tudo um pouco nessa vida de surf, e costumavam pegar Padang sozinhos nas décadas de 70, 80 e 90, iniciaram uma conversa séria sobre surf. Eram principalmente australianos, brasileiros, peruanos, americanos e havaianos. A conversa foi longa. E dura. Anoiteceu e os caras saíram remando. O papo se estendeu na areia, depois no restaurante. Trocaram e-mails e começaram a escrever. Escreveram pras revistas, pras marcas de surf, pra outros que pensavam igual, para os que pensavam diferente, pra entidade que rege o surf profissional. Trataram de se mexer. Mas eles não podiam imaginar que existisse tanta gente pensando do mesmo jeito pelo mundo. Tanta gente frustrada. Tanta gente indignada com os caminhos do surf. Leia-se, com o crescimento do crowd que só fazia dobrar ano após ano. E foi se formando um enorme maremoto virtual.

Em pouco mais de dois anos, associações foram fundadas em todos os continentes, e já funcionavam a todo vapor. Atendiam pelo singelo nome de Movimento pela Preservação do Surf, ou MPS, e contavam com milhões de filiados. Tenho certeza de que os acidentes fatais, quase semanais, que rolaram no Superbank, em 2010, contribuíram pra dar força ao movimento. Tava feia a coisa por lá. E o pior é que o governo australiano admitiu não saber como lidar com a situação. Nem distribuindo senhas nem cotas, e mesmo com a polícia patrulhando as praias, as ondas de violência não paravam de bombar em Sydney. Os Brah boys já tinham matado 17 pessoas em seis meses. Sem falar nos tiroteios nas praias do Rio e da Califórnia por causa das ondas da série. E quantos não morreram no Hawaii nas mãos dos black trunks?

Mas em 2012 algo impensável aconteceu. Os milhões de filiados ao MPS simplesmente resolveram acabar com o Circuito Mundial de Surf, impedindo que ele se realizasse em qualquer praia do planeta. O movimento culpava a indústria pelo crescimento desenfreado do surf e após anos tentando negociar com os chefões do mercado, sem sucesso, partiram para o radicalismo. O certo é que a indústria não passava, no máximo, de 1% da população surfística, mas os que sofriam no crowd eram os 99% restantes. Foi isso o que eles disseram na carta-manifesto banindo o surf profissional. Foi estranho ver aqueles caras que antes eram os ídolos do esporte, que tinham sempre as portas abertas, fosse onde fosse, que pegavam na mão grande qualquer onda que viesse, e que andavam sempre com uma legião de baba-ovos, tendo de chegar de mansinho, se escondendo, muitas vezes sendo vaiados pela população descontente, xingados de judas, de traidores. Mas se não fosse assim a grande reunião de 2013 não teria rolado nunca. Os caras jamais teriam vindo pra mesa negociar. Continuariam tocando seus negócios milionários, à custa de um esporte antes maravilhoso e que tinha se transformado em algo miserável.

San Diego, 30 de outubro de 2013. Os big boss da surf wear chegaram de helicóptero, cada um no seu. Presentes também estavam o representante global da imprensa do surf, o dos surfistas profissionais, da entidade que rege o esporte, e os cinco presidentes das maiores associações de surfistas preservacionistas do planeta, que falavam pelos 50 milhões de descontentes mundo afora, todos conectados na internet assistindo à reunião pra saber o que sairia decidido daquele encontro. Com o Circuito Mundial parado desde o ano passado, lojas de surf vazias e revistas vendendo cada vez menos, a indústria se encontrava mesmo acuada. Só nos novos mercados, como China, Escandinávia e leste europeu é que o surf continuava vendendo como se nada houvesse. Mas mesmo esse crescimento também estava comprometido, uma vez que o restante do mundo lhe havia virado as costas. A reinvidicação do MPS era uma só. "O surf precisa encolher. Já batemos na mesma tecla desde 2008, cinco anos se passaram, e nada. Fomos ignorados. Esta reunião é pra salvar o surf. Se vocês continuarem crescendo o surf vai morrer de vez. Nós, os surfistas, não aceitamos isso", começou muito bem o grande líder do MPS.

Inacreditável que tivéssemos chegado àquele ponto. Mas se não fosse assim a gente não estaria agora sentado esperando esta próxima série. Você era muito pequeno pra entender o que tava acontecendo, mas eu vi tudo. Eu tava lá. O acordo foi selado em poucas horas. Na verdade os big bosses já tinham se reunido antes e se acertado. Afinal, os caras também eram surfistas. Bem, foi só por isso que o surf parou de crescer. Os caras tiveram de sair da Bolsa de Nova York, tiveram de sair dos novos mercados, pararam de fazer campanhas desenfreadas, e também demitiram um monte de gente que teve de trabalhar em outro canto... Mas o certo é que aos poucos o surf foi voltando a ser aquilo que um dia havia sido. Um programa legal pra você curtir com alguns amigos num final de tarde, sem estresse. Tipo agora, eu e você. Entendeu?

Opa....tá subindo a série, vai na primeira que eu vou na de trás...



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