Escrito na história
Bruno Santos realizou um sonho que muito profissional talentoso corre atrás durante 10, 15 anos e não consegue.
Por Ricardo Bocão - rbocao@terra.com.br
Se você é antenado no surf, já deve saber que estávamos há seis anos sem vencer uma etapa do WCT e que tínhamos apenas 13 vitórias desde a criação do Circuito Mundial em 1976. A espetacular vitória do niteroiense Bruno Santos na temida esquerda de Teahupoo, Tahiti, no mês passado, foi a 14ª vitória. Desde 1976, contando as etapas do Circuito Mundial antes da divisão mais as etapas da elite do WCT a partir de 1992, foram realizadas 452 etapas, com essa do Tahiti e vencemos apenas 14 vezes com essa vitória histórica do Bruninho.
É perfeitamente correto computar nessa análise as 274 etapas do Circuito Mundial de 1976 a 1991, pois logo no primeiro ano da criação do Circuito, Pepê Lopes venceu o Waymea 5000, no Arpoador, RJ, competindo com os melhores do mundo na época. E Daniel Friedmann no ano seguinte. Dali em diante, alguns brasileiros passaram a viajar para competir no Circuito Mundial e poderiam ter ganho uma etapa aqui e outra ali. Não aconteceu. Só com um representante da terceira geração dos competidores brasileiros é que o Brasil voltaria a vencer com Fábio Gouveia no Hang Loose Pro Contest de 1990, no Guarujá, SP. Então, tivemos 14 vitórias em 452 etapas desde 1976.
Esses números já dariam a dimensão da importância de uma vitória brasileira no Circuito Mundial, mas a conquista da etapa de Teahupoo tem outro significado ainda mais forte. Há alguns anos, Teahupoo é a etapa mais temida do Circuito. Ao lado de Pipeline, são as duas de maior prestígio. As duas mais cobiçadas por todos os competidores. Vencer uma das duas, em condições boas ou clássicas acima de 8 a 10 pés, torna o campeão membro de um clube muito exclusivo. Algum jornalista mais ranzinza poderia tentar argumentar que boa parte do evento principal rolou em ondas médias e pequenas para os padrões de Teahupoo, mas não seria bem recebido pelos que entendem. Bruno Santos foi destaque absoluto em duas triagens realizadas em Pipeline grande, no Hawaii, classificando-se para o evento principal nas duas oportunidades, disputando apenas duas vagas no meio de um batalhão de havaianos experientes e famintos. Numa delas, foi até as quartas-de-final. Em Teahupoo, confirmou definitivamente um lugar nobre entre os melhores tuberiders do planeta. Duas triagens em dois anos com 80 competidores de todo o mundo, nervosos e atirados por uma das duas vagas no evento principal e Bruninho voou nos tubos pesados das duas triagens, garantindo vaga no evento principal nas duas últimas edições. É importante frisar: em 10 ou 20 anos de carreira, todo competidor bom ou excelente tem os seus dias em que tudo dá certo. Mas, duas triagens em Pipeline grande e clássico, um 5º lugar no evento principal, duas triagens em Teahupoo grande e uma vitória no evento principal não é para qualquer um.
Me aponte aí um surfista com esse desempenho nos últimos cinco anos, desde que começaram as triagens em Pipe e Teahupoo. Só o havaiano Jamie O'Brien me vem à cabeça - destaque em triagens nos dois picos e uma vitória em Pipe. Bruno Santos foi destaque em triagens nos dois picos e vitória em Teahupoo.
Li em algum lugar que se o mar estivesse maior nessa final contra o tahitiano Manoa Drollet, seria melhor ainda para o Bruninho. Não concordo. Não contra o Manoa. Acho que seria uma bateria espetacular e que o Bruninho teria todas as chances de vencer o tahitiano, mas se o mar estivesse maior (qualquer tamanho acima de 6 pés) seria muito, muito mais difícil, pois o Bruninho já provou que é um dos melhores nessas condições, mas o Manoa é um mestre em Teahupoo, vive uma rotina de vida naquela onda, não tem medo algum de nenhum mar ali e, pelo menos naquela onda, ele é o único que se compara ao Kelly Slater, ao Jamie O'Brien e aos irmãos Andy e Bruce Irons entubando de costas para aquela onda. Na verdade, com o mar bem pequeno, as séries bem demoradas e quase sem tubo, as condições não poderiam estar melhores para o Bruninho pegar o cara mais perigoso de todo o campeonato. Na final, ele foi calmo e controlado como um veterano do WCT. Quando teve a prioridade, foi na certa e pegou o único tubo da bateria. Surfou o que era possível, competiu muito bem e venceu o campeo-nato que todos queriam.
No final dos anos 90, numa etapa da OSP no Meio da Barra, RJ, o técnico Truta chamou o tri-campeão gaúcho Felipe Silveira para ver a bateria de um garoto de Niterói. Na época, gerente de marketing da Rip Curl Brasil, Felipe viu alguma coisa especial no moleque e o contratou. "Tinha alguma coisa na pisada dele na prancha que chamou a minha atenção", me disse ao telefone, todo orgulhoso. "Mas o mais emblemático foi logo na primeira trip dele no meio de outros atletas do time internacional, como Nathan Hedge e Chris Davidson, para fazer um filme. Em Fernando de Noronha, com a Cacimba do Padre logo no primeiro dia com uns 12 pés, Bruninho chegou à praia com uma 5'6" ou 5'8" sem cordinha. Foi lá fora, pegou logo uma bomba, veio costurando e para desespero de todos os envolvidos no filme, colocou para dentro no inside numa craca monstruosa e suicida. Morreu lá dentro, saiu nadando, pegou a prancha e passou rindo, na frente de todos, em direção ao canto para entrar de novo. Naquele momento, eu vi que tinha feito a escolha certa."
Outra pessoa importante na vida do Bruninho é o seu shaper. Confirmando uma tradição de sucesso da Wetworks, Joca Secco produziu e colocou nos pés "daquele que voa por dentro" pranchas brasileiras que o ajudaram nessa trajetória dos últimos anos. Se pranchas boas são muito importantes para ondas pequenas e fundamentais para desempenhos de alto nível no disputado Circuito Mundial, imaginem em condições extremas como as normalmente encontradas em Teahupoo e Pipeline. Não há situação pior do que dropar uma onda como Teahupoo com 8 a 12 pés, conseguir colocar no trilho certo, sabendo que em algum momento vai ter de acelerar e sentir que a prancha não corre tanto. Você fica vendido. É como se estivesse fugindo de uma avalanche atrás de você com a injeção eletrônica do seu carro falhando.
A prancha não pode engasgar. Ela tem de ser uma extensão dos seus movimentos que começam nas centelhas decisórias do cérebro e caminham na velocidade da luz para as pontas dos pés e das mãos, passando pelas articulações dos ombros, joelhos e tornozelos. Os comandos que saem do cérebro tem de ser atendidos com perfeição por todo esse conjunto de ligamentos, tendões e feixes de músculos e a prancha não pode ficar atrás, pois existe uma máquina perfeita em cima dela.
Nessa última etapa, Bruno Santos pegou todos os tamanhos e tipos de maré, arrebentou nos dias grandes, nos dias pequenos e realizou um sonho que muito profissional talentoso corre atrás durante 10, 15 anos e não consegue. Venceu uma etapa do WCT. Foi escrito na história e ninguém nunca mais tira isso dele.
É perfeitamente correto computar nessa análise as 274 etapas do Circuito Mundial de 1976 a 1991, pois logo no primeiro ano da criação do Circuito, Pepê Lopes venceu o Waymea 5000, no Arpoador, RJ, competindo com os melhores do mundo na época. E Daniel Friedmann no ano seguinte. Dali em diante, alguns brasileiros passaram a viajar para competir no Circuito Mundial e poderiam ter ganho uma etapa aqui e outra ali. Não aconteceu. Só com um representante da terceira geração dos competidores brasileiros é que o Brasil voltaria a vencer com Fábio Gouveia no Hang Loose Pro Contest de 1990, no Guarujá, SP. Então, tivemos 14 vitórias em 452 etapas desde 1976.
Esses números já dariam a dimensão da importância de uma vitória brasileira no Circuito Mundial, mas a conquista da etapa de Teahupoo tem outro significado ainda mais forte. Há alguns anos, Teahupoo é a etapa mais temida do Circuito. Ao lado de Pipeline, são as duas de maior prestígio. As duas mais cobiçadas por todos os competidores. Vencer uma das duas, em condições boas ou clássicas acima de 8 a 10 pés, torna o campeão membro de um clube muito exclusivo. Algum jornalista mais ranzinza poderia tentar argumentar que boa parte do evento principal rolou em ondas médias e pequenas para os padrões de Teahupoo, mas não seria bem recebido pelos que entendem. Bruno Santos foi destaque absoluto em duas triagens realizadas em Pipeline grande, no Hawaii, classificando-se para o evento principal nas duas oportunidades, disputando apenas duas vagas no meio de um batalhão de havaianos experientes e famintos. Numa delas, foi até as quartas-de-final. Em Teahupoo, confirmou definitivamente um lugar nobre entre os melhores tuberiders do planeta. Duas triagens em dois anos com 80 competidores de todo o mundo, nervosos e atirados por uma das duas vagas no evento principal e Bruninho voou nos tubos pesados das duas triagens, garantindo vaga no evento principal nas duas últimas edições. É importante frisar: em 10 ou 20 anos de carreira, todo competidor bom ou excelente tem os seus dias em que tudo dá certo. Mas, duas triagens em Pipeline grande e clássico, um 5º lugar no evento principal, duas triagens em Teahupoo grande e uma vitória no evento principal não é para qualquer um.
Me aponte aí um surfista com esse desempenho nos últimos cinco anos, desde que começaram as triagens em Pipe e Teahupoo. Só o havaiano Jamie O'Brien me vem à cabeça - destaque em triagens nos dois picos e uma vitória em Pipe. Bruno Santos foi destaque em triagens nos dois picos e vitória em Teahupoo.
Li em algum lugar que se o mar estivesse maior nessa final contra o tahitiano Manoa Drollet, seria melhor ainda para o Bruninho. Não concordo. Não contra o Manoa. Acho que seria uma bateria espetacular e que o Bruninho teria todas as chances de vencer o tahitiano, mas se o mar estivesse maior (qualquer tamanho acima de 6 pés) seria muito, muito mais difícil, pois o Bruninho já provou que é um dos melhores nessas condições, mas o Manoa é um mestre em Teahupoo, vive uma rotina de vida naquela onda, não tem medo algum de nenhum mar ali e, pelo menos naquela onda, ele é o único que se compara ao Kelly Slater, ao Jamie O'Brien e aos irmãos Andy e Bruce Irons entubando de costas para aquela onda. Na verdade, com o mar bem pequeno, as séries bem demoradas e quase sem tubo, as condições não poderiam estar melhores para o Bruninho pegar o cara mais perigoso de todo o campeonato. Na final, ele foi calmo e controlado como um veterano do WCT. Quando teve a prioridade, foi na certa e pegou o único tubo da bateria. Surfou o que era possível, competiu muito bem e venceu o campeo-nato que todos queriam.
No final dos anos 90, numa etapa da OSP no Meio da Barra, RJ, o técnico Truta chamou o tri-campeão gaúcho Felipe Silveira para ver a bateria de um garoto de Niterói. Na época, gerente de marketing da Rip Curl Brasil, Felipe viu alguma coisa especial no moleque e o contratou. "Tinha alguma coisa na pisada dele na prancha que chamou a minha atenção", me disse ao telefone, todo orgulhoso. "Mas o mais emblemático foi logo na primeira trip dele no meio de outros atletas do time internacional, como Nathan Hedge e Chris Davidson, para fazer um filme. Em Fernando de Noronha, com a Cacimba do Padre logo no primeiro dia com uns 12 pés, Bruninho chegou à praia com uma 5'6" ou 5'8" sem cordinha. Foi lá fora, pegou logo uma bomba, veio costurando e para desespero de todos os envolvidos no filme, colocou para dentro no inside numa craca monstruosa e suicida. Morreu lá dentro, saiu nadando, pegou a prancha e passou rindo, na frente de todos, em direção ao canto para entrar de novo. Naquele momento, eu vi que tinha feito a escolha certa."
Outra pessoa importante na vida do Bruninho é o seu shaper. Confirmando uma tradição de sucesso da Wetworks, Joca Secco produziu e colocou nos pés "daquele que voa por dentro" pranchas brasileiras que o ajudaram nessa trajetória dos últimos anos. Se pranchas boas são muito importantes para ondas pequenas e fundamentais para desempenhos de alto nível no disputado Circuito Mundial, imaginem em condições extremas como as normalmente encontradas em Teahupoo e Pipeline. Não há situação pior do que dropar uma onda como Teahupoo com 8 a 12 pés, conseguir colocar no trilho certo, sabendo que em algum momento vai ter de acelerar e sentir que a prancha não corre tanto. Você fica vendido. É como se estivesse fugindo de uma avalanche atrás de você com a injeção eletrônica do seu carro falhando.
A prancha não pode engasgar. Ela tem de ser uma extensão dos seus movimentos que começam nas centelhas decisórias do cérebro e caminham na velocidade da luz para as pontas dos pés e das mãos, passando pelas articulações dos ombros, joelhos e tornozelos. Os comandos que saem do cérebro tem de ser atendidos com perfeição por todo esse conjunto de ligamentos, tendões e feixes de músculos e a prancha não pode ficar atrás, pois existe uma máquina perfeita em cima dela.
Nessa última etapa, Bruno Santos pegou todos os tamanhos e tipos de maré, arrebentou nos dias grandes, nos dias pequenos e realizou um sonho que muito profissional talentoso corre atrás durante 10, 15 anos e não consegue. Venceu uma etapa do WCT. Foi escrito na história e ninguém nunca mais tira isso dele.


