Colunas > Fala Bocão29/07/2008 - 17h29

O melhor de todos os tempos

Kelly Slater buscará esse título 100% motivado, totalmente focado, usando toda a sua condição física privilegiada e o raciocínio que lhe sobra.
Por Ricardo Bocão - rbocao@terra.com.br
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Acho que já falei tudo o que dava para falar do americano octacampeão mundial Kelly Slater como surfista aqui neste espaço. Estou arriscando a chover no molhado, mas neste final de primeiro semestre dá para falar não propriamente dele, mas do que ele está fazendo no momento.
Estive envolvido, entre outras coisas, quase 20 anos empresariando ou ajudando surfistas brasileiros a construir uma carreira sólida no mundo competitivo dos circuitos internacionais. E nunca vi, nem aqui nem no exterior, talento, foco e motivação pessoal suficientes que mantivessem um atleta no circuito por mais de doze, quinze anos, num nível capaz de disputar consistentemente um lugar entre os top 5 por muitos anos seguidos. Não acreditava, inclusive, que fosse o caso do Slater. Mas agora não sei não.
Vendo ele surfar este ano chega-se à conclusão de que ele é ainda mais especial do que todos o consideram, se é que isso é possível. Há uns dois anos, escrevi neste espaço que antes de todos chamá-lo tão rapidamente de "o melhor surfista de todos os tempos", deveríamos lembrar que existiram outras épocas distantes e difíceis de ser comparadas, como as décadas de 50 e 60, nas quais reinaram os americanos Phil Edwards e Mickey Dora, ou ainda que existe um outro universo dentro do nosso planeta que é o de ondas gigantes e esse também tem o seu rei há anos - o havaiano Laird Hamilton.
Mas, pelos oito títulos mundiais e por todas as performances que já se viu ao vivo e nos vídeos, concordo e aceito a opinião unânime de que ele é sim o melhor surfista de todos os tempos e arrisco a dizer que este ano ele está ainda mais sólido do que nunca na sua linha de surf.
Nesses quase 40 anos surfando intensamente por todo o planeta, aprendi que os surfistas bons e os excepcionais mantêm, mesmo depois de 20 anos de surf, a base e a firmeza em cima da prancha. A maioria consegue também manter a linha na onda que os consagraram. Mas, depois desses mesmos 20 anos e duas "mudanças de guarda", o estilo e a postura em cima da prancha não conseguem acompanhar as novas posições dos tornozelos cada vez mais dobrados e maleáveis das novas gerações. Não conseguem acompanhar tanto as novas posições dos braços e antebraços em relação ao restante do corpo ou ainda posições típicas de uma nova geração, como foi o caso nos últimos dez anos do "grab-rail", que transformou em exímios e impressionantes "tuberiders" os surfistas que entubam de costas para a onda. Depois de 20 anos, mesmo conservando a base, a maioria não consegue acompanhar o estilo da nova geração e seus movimentos em relação às aceleradas, cravadas, desgarradas e aos giros que mudam cada vez mais rapidamente a trajetória da prancha nas paredes das ondas.
Então, a maioria dos surfistas bons e excepcionais, depois de 20 anos, continuam a ser bons ou ótimos surfistas, mas perdem a "modernidade".
Já no ano passado, inconscientemente, eu esperava ver uma pontinha de obsolescência no surf do Slater. Ele ainda perturbaria os melhores do mundo nas etapas do WCT com a sua inigualável leitura do mar, com a sua enorme experiência adquirida pelos oito títulos mundias, mas achei que daria para começar a notar um movimento ou outro que demonstrasse que, também para ele, a sua hora tinha chegado.
Obviamente ele não tem o "frescor" dos seus companheiros de equipe Dane Reynolds e Ry Craike. E nem poderia, pois estamos vendo-o surfar há 20 anos.
Mas, nem no ano passado e nem nestas quatro primeiras etapas, eu consegui perceber qualquer mudança. E este ano prestei atenção conscientemente, querendo ver se ele tinha escorregado, um pouquinho que fosse, para uma postura na prancha um pouco mais obsoleta. Não consegui, simplemente porque o cara está quebrando de um jeito que fica até difícil encontar um adjetivo que represente o seu atual estágio de desempenho na água.
Uma questão importante em relação ao título mundial deste ano é tentar adivinhar o quanto Slater quer esse nono título. Nos últimos anos, todos ficaram especulando nas três primeiras etapas se o "freak" americano iria entrar de cabeça no Circuito Mundial ou iria apenas curtir uma etapa aqui e outra ali. Ele mesmo deve ter ficado na maior dúvida em um ou outro desses anos.
Depois que ele venceu as duas primeiras etapas em 2008, pareceu meio óbvio que ele estaria decidido a buscar com seriedade o título mundial. Mas qualquer dúvida, por menor que fosse, que alguém poderia ter em relação à determinação dele rumo ao nono título se dissipou num depoimento que ele deu após a vitória em Fiji, fazendo um retrospecto de suas baterias desde as oitavas. Ele disse que tinha ficado "nervoso" enfrentando o Mark Occhilupo na terceira rodada, nervoso e apreensivo na tentativa de virar em cima do Bobby Martinez nas quartas e que foi ficando mais calmo e confiante depois das quartas.
Se ele não estivesse totalmente comprometido e já visualizando as etapas com a importância que elas efetivamente têm para quem está buscando um título mundial, ele não ficaria nervoso nem apreensivo na terceira rodada ou nas quartas, não importando com quem ele iria cair.
Também, se esse detalhe não for um forte indício, relaciono aqui as notas da bateria de estréia mais devastadora que eu já testemunhei numa etapa do Circuito Mundial. Em Fiji, contra Taylor Knox e Isei Tokovou, Kelly surfou seis ondas e nas quatro melhores recebeu dos juízes um 10, um 9,73, um 9,67 e um 9. Na soma das duas melhores notas ele passou em primeiro direto para a terceira fase com impressionantes 19,73 de possíveis 20 pontos. Mas, impressionante mesmo é a pergunta: quando foi a última vez que você "descartou" (deixou de fora no seu somatório) um 9,67 e um 9 numa bateria?
A realidade é simples e transparente como a água do mar em Fiji - Kelly Slater buscará esse título 100% motivado, totalmente focado, usando toda a sua condição física privilegiada e o raciocínio que lhe sobra. Mesmo com todo esse aparato físico e psicológico, ele ainda deve se divertir no processo em algumas situações mais fáceis.
E se o boato que rolou sobre o bônus que a Quiksilver pode lhe dar se vencer dez títulos mundiais for verdade, ele poderá ficar US$ 10.000.000,00 (dez milhões de dólares) mais rico no final de 2009.
E será merecedor de cada dólar dessa impressionante quantia.



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