Fred, aos 15 anos, na extinta Brasil Surf, 1978.


Colunas > Outras ondas29/07/2008 - 17h32

Prezado Nelson Machado

O que você não sabe é que todo surfista profissional brasileiro te deve muito, pois foi com a sua loucura que tudo começou.
Por Fred D'Orey - officebr@totempraia.com.br
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Espero que você esteja bem.
Tentei muito te encontrar, e como não consegui segue este texto que alguém há de fazer chegar às suas mãos. Não é nada demais, apenas um agradecimento. É que na última vez em que nos vimos eu era muito garoto, não tinha nem vinte anos, e não saquei direito as coisas. Mas hoje eu entendo, entendo o quão importante foi o Waimea 5000 para o surf brasileiro e para mim pessoalmente. E quanto mais eu penso nisso, mais eu te admiro.
Você foi um visionário, um louco, um homem à frente do seu tempo. Dez anos antes do Hang Loose de 86, foi você quem colocou o Brasil no mapa. Aquele primeiro campeonato que você fez foi demais. Arpoador lotado. Areia coalhada de gente. Tinha neguinho até no pontão. Eu era um deles, e assim que a final entre o Jeff Crawford e o Pepê terminou, fui o primeiro a pular no mar para surfar a próxima série. Lembro bem da emoção contando os segundos. A cidade parou para ver a tribo do surf. E vamos combinar que naquela época a gente era bem exótico e diferente. Acho que foi nossa primeira exposição nacional. Saiu em tudo quanto é lugar, até no "Jornal Nacional", no "Fantástico" e no "Esporte Espetacular". Sem falar na capa de todos os jornais.
Mas uma das coisas que eu fico mais chocado é que você fez o Waimea 5000 antes de existir o Circuito Mundial. Antes mesmo de existir surfwear. Simplesmente fez. E olha que você nem pegava onda. Nunca pegou, certo? Me lembro da sua lojinha, a Waimea, ali na antiga Montenegro, atual Vinícius, esquina com a Barão da Torre. Era uma loja de surf, mas não me lembro de ver prancha vendendo. Fico até envergonhado de dizer que, pô, nunca comprei nem uma parafina na sua loja. Mas tenho para mim que você não se importava. O campeonato era tão maior que a loja... Era a única coisa que rolava no Rio daquela época. Aliás, você bombava a cidade. Vinha gente de tudo quanto é lugar do Brasil para ver o show dos melhores surfistas do mundo. E a gente era tão carente... Tudo bem que tinha a revista "Brasil Surf", e as "Surfer" e "Surfing", mas nada comparado com ver os caras ao vivo e em cores. Nelson, acho que o surf brasileiro evoluiu pra cacete por sua causa. Sei o quanto eu e os meus amigos progredimos, o quanto o nosso surf cresceu por causa dos Waimeas.
No ano seguinte, você fez de novo. Mas dessa vez o campeonato começou no Arpoador, acabou no Quebra Mar, deu altas ondas, e o Daniel Friedman venceu o Pepê na final. Mas eu não conseguia tirar os olhos do Shaun Tomson, do Mike Purpus, do Dane Kealoha e do Dave Balzerak. Os gringos eram muito melhores do que a gente, e isso nos deu uma boa sacudida. Me lembro que um monte de amigo ficava cercando os caras para comprar cordinha, camisa, prancha, óculos, qualquer coisa. Ficava um mundaréu de gente na portaria do hotel, tipo fã de banda de rock. Eu nunca fui, não achava graça em consumir essas coisas. Gostava era de ver os caras surfando para depois tentar fazer igual.
Em 78 você fez outro Waimea 5000. Nessa época eu já era patrocinado pelo Daniel, e foi ele quem me inscreveu no campeonato. Até meu pai foi à praia para ver de perto que história era aquela. Só sei que passei a triagem e quando fui até o cercado dos juízes ver com quem eu ia competir, um branquelo com uma toalha na cabeça apontou para o nome Rabbit Bartholomew, que estava junto ao meu, e saiu correndo. Era o próprio, a grande estrela do Free Ride, e eu era seu adversário. Fala sério!! O cara me massacrou e terminou o ano campeão do mundo. Você me deu essas emoções de presente. E eu nunca pude agradecer. Outra coisa, na matéria que saiu na "Brasil Surf" (que aliás, foi a última) sobre o campeonato, os caras escolheram uma foto minha para abertura. Eu, com meros quinze anos, e olha que o campeão foi o menino prodígio Cheyne Horan!!
Pois é, Nelson, já tô pra te escrever faz tempo. Tentei te encontrar muitas vezes, sem sucesso. Uns dizem que você hoje vive na China, outros, na Califórnia. Não importa, porque tenho certeza de que este texto vai chegar até você. Não tenho dúvidas de que você é o grande herói desconhecido do surf. Ninguém sabe quem você é, as pessoas não se lembram mais. No entanto você deu muito e recebeu pouquíssimo. Me lembro de ouvir nos bastidores do campeonato que você estava quebrado, mas isso não te impediu de fazer ainda mais três edições do Waimea 5000 - em 80, 81 e 82.
Muitas emoções eu vivi nesses últimos anos. Surfando de biquilha no Arpoador, perdi para o Joey Buran, que ganhou o evento em 80, e fiquei em 9º. No ano seguinte, caí de novo com o Buran, mas dessa vez eu ganhei. E do Martin Potter. E do Dane Kealoha. Tudo no homem a homem. Cheyne Horan venceu e eu empatei com o Mark Richards em 3º. O campeonato rolou na Prainha e foi o maior astral, super "country feeling". Em 1982 rolou o último Waimea 5000. Muita gente diz que eu fui garfado, porque os dois juízes gringos me deram a vitória sobre o Terry Richardson. Mas como os três brasileiros deram para o cara, eu dancei e fiquei em 5º. Sabe como é, santo de casa não faz milagre. Fiquei bem chateado, mas não com você. É que o australiano ganhou o campeonato e ficou aquele gostinho de "quem sabe?"... Você provavelmente nem se lembra disso. Também pudera, estava tentando se equilibrar com tanta conta para pagar e tanto estresse. E mesmo assim o campeonato foi o maior sucesso.
Depois, quando você se cansou e jogou a toalha, a gente ficou de fora três anos sem campeonato internacional por aqui. Foi só quando o Alfio, da Hang Loose, bancou o evento da Joaquina que o trem voltou para o trilho. Mas ele soube capitalizar em cima e se deu superbem. Hoje a Hang Loose é gigante. Mas você deve saber disso tudo. O que você não sabe é que todo surfista profissional brasileiro te deve muito, pois foi com a sua loucura que tudo começou. E por isso, em nome de todos eles, eu te agradeço do fundo do coração.
Um forte abraço, esteja onde estiver.
Fred d'Orey



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