Como tudo começou
Para que os surfistas profissionais possam hoje ter uma vida de sonho, foi preciso que um grupo de australianos e sul-africanos arriscasse tudo, encarando de frente os havaianos em seu próprio território no meio dos anos 70. O documentário “Bustin' Down The Door” narra em detalhes essa aventura que quase se transformou num pesadelo.
Por Adrian Kojin
Assistir ao documentário "Bustin' Down the Door", que estreou com ótimas críticas nos cinemas americanos em 25 de julho, deveria ser obrigatório para qualquer surfista que pretenda viver do esporte. Se hoje o sonho de ser pago para surfar é uma realidade, primeiro foi preciso que um grupo de surfistas australianos - Wayne "Rabbit" Bartholomew, Mark Richards, Ian Cairns e Peter Towned, e sul-africanos -, os primos Shaun e Michael Tomson, literalmente tivesse de pôr sua vida em risco para "derrubar a porta". E não só na água, puxando os limites da alta performance nas temidas ondas do North Shore, mas principalmente em terra firme, encarando as ameaças de morte feitas pelos havaianos ofendidos com a atitude ultracompetitiva daqueles surfistas que se achavam, e faziam questão que o mundo todo soubesse disso, os melhores.
O filme, produzido por Shaun Tomson, teve como principal inspiração, inclusive declarada nos créditos finais, a trajetória do campeão mundial de 1978 e atual presidente da ASP (Association of Surfing Professionals) Wayne "Rabbit" Bartholomew. Num dos depoimentos mais tocantes do documentário, Rabbit chora ao contar como, filho de pais divorciados, sem nenhum dinheiro no bolso e com a responsabilidade de sustentar a mãe e quatro irmãs, ele chegou a roubar para colocar comida na mesa de sua casa na Gold Coast australiana.
Nesse período complicado da sua vida, surfar era o escape para a sobrecarga de tensões atormentando o garotão loirinho e magrelo, que dominava os tubos de Kirra como ninguém. E se ele pudesse transformar sua diversão em profissão? Foi com essa visão em mente que Rabbit começou a freqüentar o Hawaii no início dos anos 70. O objetivo era se provar nos picos mais desafiadores do planeta e iniciar o processo que culminaria na troca de guarda na Meca do surf mundial, até então dominada pelos surfistas nativos do arquipélago.
Ainda que já narrado anteriormente em várias oportunidades, tanto em matérias de revistas especializadas como na sua autobiografia - escrita por Tim Baker e que leva o mesmo nome do filme -, o episódio em que Rabbit perde um par de dentes ao ser surrado pelos locais é revisitado na fita com uma riqueza de detalhes envolvente, aproximando o espectador do drama que definiria o futuro do surf profissional. Enfurecidos com o artigo publicado alguns meses antes na revista "Surfer", assinado por Rabbit e intitulado Busting Down The Door, no qual ele afirmava a supremacia dos australianos e sul-africanos no North Shore, os havaianos colocam a cabeça de Rabbit e seus parceiros a prêmio. Para se ter uma idéia da gravidade da situação, basta dizer que Ian Cairns e Shaun Tomson se armaram, cada um deles comprando uma "doze". Shaun dormia com a sua ao lado da cama. Ian carregava a dele no porta malas do carro com um taco de beisebol.
Como o grupo de talentosos surfistas australianos e sul-africanos se meteu, e, mais importante, se safou dessa enrascada é esclarecido minuciosamente no filme. Pesos pesados da cena havaiana nos anos 70, como o irmão de Eddie Aikau, Clyde Aikau, e o líder dos "black shorts", "Fast" Eddie Rothman, entre outros, dão o ponto de vista local. Já Rabbit, Ian, Shaun, Richards, PT e Michael Tomson explicam que eles nunca pretenderam desrespeitar ninguém, apenas provar que as ondas do North Shore podiam ser surfadas de uma maneira muito mais agressiva e radical.
Conduzido com habilidade pelo diretor Jeremy Gosch, também surfista nas horas vagas, e narrado pelo astro de Holywood Edward Norton, o documentário tem uma ambição maior que a de fazer sucesso apenas entre surfistas. Seguindo na mesma linha do que foi feito em "Dogtown and the Z-Boys" em relação ao skate, a intenção é colocar em perspectiva para o grande público uma era marcante do surf, na qual novos parâmetros de alta performance revolucionaram o esporte. Foram os acontecimentos ocorridos durante os anos de 1974, 75 e 76 focados pelo filme que abriram caminho para que um Circuito Mundial bem estruturado permitisse aos surfistas viverem do esporte, ao mesmo tempo em que uma indústria, que se tornaria bilionária num futuro não muito distante, ganhava seu primeiro grande impulso.
Talvez o surfista (mal) acostumado à overdose de surfporn oferecida por grande parte dos DVDs de surf em circulação, principalmente aqueles que servem como instrumento de marketing das grandes marcas de surfwear, sinta falta de mais imagens de surf em "Busting Down The Door". Definitivamente não é um filme para ser assistido antes de uma sessão de sexo, ops, quer dizer, de surf, com a intenção de deixar o espectador pilhado para a ação iminente. Mais da metade dos 95 minutos são preenchidos por pura falação, e por isso mesmo a fita requer um ambiente adequado e silencioso para ser apreciada. É preciso se concentrar na seqüência de depoimentos para entender todas as nuances do impacto que Rabbit e seus companheiros causaram ao tomar de assalto as ondas do North Shore.
Mesmo assim, podem ser conferidos no filme registros de performances épicas, como Mark Richards arrepiando em Waimea de uma maneira até hoje não repetida, ou Shaun Tomson em Off The Wall, revolucionando as técnicas de entubar, movendo a prancha no interior dos tubos para ganhar velocidade e encontrar a saída que parecia impossível. Estão lá também arrebentando Ian, PT, Michael Tomson, além de mitos havaianos como Gerry Lopez, Barry Kaianapuni, Jeff Hakman e Reno Abelira. Garimpadas em clássicos como Free Ride, Cosmic Children, Fantasea, Five Summer Stories, e embaladas por uma trilha sonora afiadíssima, com músicas dos Rolling Stones, The Stooges, David Bowie, Queen, entre outras bandas que faziam a cabeça da galera na época, são imagens capazes de fazer qualquer um viajar no túnel do tempo.
Os observadores mais críticos irão apontar que o filme é centrado demais na história de Rabbit, Shaun e Richards, destacando os três, com o auxílio de seus parceiros, como os únicos responsáveis pelo surf de alta performance que viria a se tornar norma dali em diante. O que não é verdade, pois Larry Bertleman e seus discípulos Buttons Kaluhiokalani, Mark Liddel e Dane Kealoha, também estavam quebrando barreiras com um surf futurista. A fita fica mesmo lhes devendo um reconhecimento e a provável justificativa para isso é que eles não enfrentaram tantas dificuldades por ser havaianos, enquanto com os australianos e sul-africanos não teve jeito, as coisas tiveram de ser resolvidas na porrada. Nas ondas, onde eles prevaleceram, e fora delas, onde tiveram de pedir arrego.
O final da história é conhecido. PT foi declarado o primeiro campeão mundial em 1976, Shaun ficou com o título de 1977, Rabbit com o de 1978 e de 1979 a 1981, já equipado com suas biquilhas mágicas, Mark Richards faturou quatro canecos seguidos. O preço para derrubar a porta pode ter sido alto, mas depois que ela foi ao chão a recompensa fez tudo valer a pena, principalmente para as gerações mais recentes, que devem enorme gratidão aos pioneiros do surf profissional.
É uma pena que o filme ainda não tenha um distribuidor no Brasil. Sorte daqueles que tiveram a chance de conferi-lo na IV Mostra de Cinema Osklen, em julho. O mais provável é que a maioria dos brasileiros interessada em se aprofundar na história do esporte só venha ter acesso ao filme quando ele sair em DVD lá fora e puder ser comprado pela internet ou em surf shops que o importem. O que em grande parte inviabiliza o filme ser visto por todos aqueles que pretendem viver do surf, como é proposto no início deste texto. Mas a sugestão continua válida.
O filme, produzido por Shaun Tomson, teve como principal inspiração, inclusive declarada nos créditos finais, a trajetória do campeão mundial de 1978 e atual presidente da ASP (Association of Surfing Professionals) Wayne "Rabbit" Bartholomew. Num dos depoimentos mais tocantes do documentário, Rabbit chora ao contar como, filho de pais divorciados, sem nenhum dinheiro no bolso e com a responsabilidade de sustentar a mãe e quatro irmãs, ele chegou a roubar para colocar comida na mesa de sua casa na Gold Coast australiana.
Nesse período complicado da sua vida, surfar era o escape para a sobrecarga de tensões atormentando o garotão loirinho e magrelo, que dominava os tubos de Kirra como ninguém. E se ele pudesse transformar sua diversão em profissão? Foi com essa visão em mente que Rabbit começou a freqüentar o Hawaii no início dos anos 70. O objetivo era se provar nos picos mais desafiadores do planeta e iniciar o processo que culminaria na troca de guarda na Meca do surf mundial, até então dominada pelos surfistas nativos do arquipélago.
Ainda que já narrado anteriormente em várias oportunidades, tanto em matérias de revistas especializadas como na sua autobiografia - escrita por Tim Baker e que leva o mesmo nome do filme -, o episódio em que Rabbit perde um par de dentes ao ser surrado pelos locais é revisitado na fita com uma riqueza de detalhes envolvente, aproximando o espectador do drama que definiria o futuro do surf profissional. Enfurecidos com o artigo publicado alguns meses antes na revista "Surfer", assinado por Rabbit e intitulado Busting Down The Door, no qual ele afirmava a supremacia dos australianos e sul-africanos no North Shore, os havaianos colocam a cabeça de Rabbit e seus parceiros a prêmio. Para se ter uma idéia da gravidade da situação, basta dizer que Ian Cairns e Shaun Tomson se armaram, cada um deles comprando uma "doze". Shaun dormia com a sua ao lado da cama. Ian carregava a dele no porta malas do carro com um taco de beisebol.
Como o grupo de talentosos surfistas australianos e sul-africanos se meteu, e, mais importante, se safou dessa enrascada é esclarecido minuciosamente no filme. Pesos pesados da cena havaiana nos anos 70, como o irmão de Eddie Aikau, Clyde Aikau, e o líder dos "black shorts", "Fast" Eddie Rothman, entre outros, dão o ponto de vista local. Já Rabbit, Ian, Shaun, Richards, PT e Michael Tomson explicam que eles nunca pretenderam desrespeitar ninguém, apenas provar que as ondas do North Shore podiam ser surfadas de uma maneira muito mais agressiva e radical.
Conduzido com habilidade pelo diretor Jeremy Gosch, também surfista nas horas vagas, e narrado pelo astro de Holywood Edward Norton, o documentário tem uma ambição maior que a de fazer sucesso apenas entre surfistas. Seguindo na mesma linha do que foi feito em "Dogtown and the Z-Boys" em relação ao skate, a intenção é colocar em perspectiva para o grande público uma era marcante do surf, na qual novos parâmetros de alta performance revolucionaram o esporte. Foram os acontecimentos ocorridos durante os anos de 1974, 75 e 76 focados pelo filme que abriram caminho para que um Circuito Mundial bem estruturado permitisse aos surfistas viverem do esporte, ao mesmo tempo em que uma indústria, que se tornaria bilionária num futuro não muito distante, ganhava seu primeiro grande impulso.
Talvez o surfista (mal) acostumado à overdose de surfporn oferecida por grande parte dos DVDs de surf em circulação, principalmente aqueles que servem como instrumento de marketing das grandes marcas de surfwear, sinta falta de mais imagens de surf em "Busting Down The Door". Definitivamente não é um filme para ser assistido antes de uma sessão de sexo, ops, quer dizer, de surf, com a intenção de deixar o espectador pilhado para a ação iminente. Mais da metade dos 95 minutos são preenchidos por pura falação, e por isso mesmo a fita requer um ambiente adequado e silencioso para ser apreciada. É preciso se concentrar na seqüência de depoimentos para entender todas as nuances do impacto que Rabbit e seus companheiros causaram ao tomar de assalto as ondas do North Shore.
Mesmo assim, podem ser conferidos no filme registros de performances épicas, como Mark Richards arrepiando em Waimea de uma maneira até hoje não repetida, ou Shaun Tomson em Off The Wall, revolucionando as técnicas de entubar, movendo a prancha no interior dos tubos para ganhar velocidade e encontrar a saída que parecia impossível. Estão lá também arrebentando Ian, PT, Michael Tomson, além de mitos havaianos como Gerry Lopez, Barry Kaianapuni, Jeff Hakman e Reno Abelira. Garimpadas em clássicos como Free Ride, Cosmic Children, Fantasea, Five Summer Stories, e embaladas por uma trilha sonora afiadíssima, com músicas dos Rolling Stones, The Stooges, David Bowie, Queen, entre outras bandas que faziam a cabeça da galera na época, são imagens capazes de fazer qualquer um viajar no túnel do tempo.
Os observadores mais críticos irão apontar que o filme é centrado demais na história de Rabbit, Shaun e Richards, destacando os três, com o auxílio de seus parceiros, como os únicos responsáveis pelo surf de alta performance que viria a se tornar norma dali em diante. O que não é verdade, pois Larry Bertleman e seus discípulos Buttons Kaluhiokalani, Mark Liddel e Dane Kealoha, também estavam quebrando barreiras com um surf futurista. A fita fica mesmo lhes devendo um reconhecimento e a provável justificativa para isso é que eles não enfrentaram tantas dificuldades por ser havaianos, enquanto com os australianos e sul-africanos não teve jeito, as coisas tiveram de ser resolvidas na porrada. Nas ondas, onde eles prevaleceram, e fora delas, onde tiveram de pedir arrego.
O final da história é conhecido. PT foi declarado o primeiro campeão mundial em 1976, Shaun ficou com o título de 1977, Rabbit com o de 1978 e de 1979 a 1981, já equipado com suas biquilhas mágicas, Mark Richards faturou quatro canecos seguidos. O preço para derrubar a porta pode ter sido alto, mas depois que ela foi ao chão a recompensa fez tudo valer a pena, principalmente para as gerações mais recentes, que devem enorme gratidão aos pioneiros do surf profissional.
É uma pena que o filme ainda não tenha um distribuidor no Brasil. Sorte daqueles que tiveram a chance de conferi-lo na IV Mostra de Cinema Osklen, em julho. O mais provável é que a maioria dos brasileiros interessada em se aprofundar na história do esporte só venha ter acesso ao filme quando ele sair em DVD lá fora e puder ser comprado pela internet ou em surf shops que o importem. O que em grande parte inviabiliza o filme ser visto por todos aqueles que pretendem viver do surf, como é proposto no início deste texto. Mas a sugestão continua válida.



