Colunas > Outras ondas15/09/2008 - 14h39

Em qualquer lugar menos aqui

Posso até não ser superticioso, mas os balineses são. Tudo para eles é sinal de descontentamento ou de fúria dos seus deuses.
Por Fred D'Orey - officebr@totempraia.com.br
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Não sou nem um pouco supersticioso. Nem acredito em sinais do além. Mas o visual do navio pesqueiro Ho Tsai Fa No. 18, de Taiwan, cravado na bancada de Padang-Padang, confesso, me deixou todo arrepiado. Pensei no ato: 'isso só pode ser um sinal dos deuses'. Ora, quem frequenta Bali observa, aturdido, a devastação em curso dos últimos cinco anos. Não tem como não ver. Crowd insano no pico, cliffs despencando, construções irregulares e medonhas, especulação imobiliária, esgoto jorrando na caverna de Uluwatu. Bem triste.

Por isso, quando começou a se falar que o WCT iria realizar uma etapa nessa mesma Uluwatu, gelei. Era só o que faltava. A estocada final. É tudo o que Bali não precisa. Os locais podem até fazer um troquinho básico e rápido, mas quando o circo se for as conseqüências serão desastrosas e previsíveis - crescimento ainda mais acelerado e desorganizado, poluição, turismo predatório. Bali não é mais a virgem intocada de outrora, mas realizar um campeonato cujo o marketing prega "A BUSCA" por ondas remotas e perfeitas num pico tão batido e problemático quanto Uluwatu, só pode ser piada.

Para crédito da marca, bem que o patrocinador do evento tentou realizar a etapa no oeste da Austrália e na Nova Zelândia, mas tanto a comunidade de Gnaraloo quanto a de Raglan se movimentaram e se opuseram a sua realização. Os locais, com educação de primeiro mundo, sabem muito bem o estrago que esse campeonato traria a reboque. A diferença é que em países pobres, como Indonésia e Brasil, ninguém defende realmente os interesses do lugar. É só distribuir dinheiro que as portas vão se abrindo. Mas eis que duas semanas antes do evento, os deuses mandam um enorme barco pesqueiro encalhar bem no lugar do drop de Padang-padang. "Esse navio fantasma é sinal de que algo não vai bem", me resumiu o local Wayan, num curto email.

Eu posso até não ser supersticioso, mas os balineses são. E muito. Tudo pra eles é sinal de contentamento ou de fúria dos seus deuses. Tudo é sinal. Toda a sua delicada sociedade se equilibra entre o bem e o mal, entre a sorte e o azar que os deuses lhes enviam. E posso muito bem imaginar as discussões que essa 'coincidência' (será?) está gerando no banjar de Uluwatu e Padang. Os embates entre os que estão levando um troquinho e os que preferem preservar o ancestral equilíbrio balinês, e vêem com desconfiança toda essa movimentação, que sabem, irá comprometer ainda mais suas qualidades de vida.

O campeonato pode até dar altas ondas, ser transmitido pro mundo inteiro, os surfistas podem até esculachar, e vão, mas seu karma já começou definitivamente negativo. Depois dos sucessos de Barra de La Cruz, no México, e de Arica, no Chile, com surf de alto nível e aventura, bem de acordo com o que esse evento "Somewhere in" se propõe, fazer o campeonato nas batidas esquerdas de Uluwatu, foi uma tremenda bola fora da direção de marketing da empresa. Taí o barco fantasma encalhado na bancada de Padang-Padang, que não nos deixa mentir.



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