Mineirinho levantando o jantar, que logo estaria na mesa, na forma de deliciosos sashimis; lista de procurados, recompensa alta: alguém se habilita?

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Edição 275 > Colômbia selvagem

Colômbia selvagem

Esta barca tinha tudo para terminar em roubada, mas acabou revelando um destino surpreendentemente hospitaleiro, com enorme potencial para descoberta de novas ondas.
Motaury Porto
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Quando comentei com alguns amigos que estava para ir à Colômbia fazer fotos de surf, eles me responderam com a mesma curiosidade que eu também tinha há poucos meses: afinal, tem onda na Colômbia? Lá não é a terra da cocaína e dos guerrilheiros das Farc? Bom, com certeza é sim. Mas eu queria apostar no "outro lado da moeda", algo que valesse o risco. Em busca de novas fronteiras, novas emoções, a Colômbia ia tomando forma como um destino certo para uma surf trip cheia de aventuras, descobertas e ondas, é claro. Após algum tempo pesquisando na grande rede, cheguei àquilo que considerava com grande potencial de ondas: Pico de Loro, Nuquí, Chocó, Colômbia!

Incrível como podemos às vezes rodar o mundo com apenas uma única imagem em vista, buscando uma onda como um verdadeiro tesouro! Por meio do contato com a equipe da revista FLUIR, surgiu um patrocinador disposto a arriscar um destino desses, com a Oakley abraçando a idéia. Quando me dei conta, lá estávamos nós em Medellín. Justamente onde.... Medellín tornou-se mundialmente "famosa" devido ao cartel formado por uma rede de traficantes de drogas muito bem organizado, que operou fortemente nas décadas de 70 e 80, comandado pelo falecido e mitológico Pablo Escobar. Estima-se que o cartel chegou a faturar cerca de 60 milhões de dólares por mês!!!!

Entre conflitos com o cartel de Cali e o governo colombiano, o cartel de Medellín veio a desaparecer enquanto entidade unificada, mas muitos de seus "associados" sobreviventes e antigos membros ainda continuam ativos no comércio internacional de drogas. Este era o nosso maior receio, ainda mais sabendo que os traficantes atuam em conjunto com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - exército do povo), uma organização de inspiração comunista que opera mediante uso de métodos terroristas e táticas de guerrilha. Adriano "Mineirinho" de Souza, Caio Ibelli, Barbara Muller e Miguel Pupo formavam o time de brazucas a buscar essa jóia no Pacífico, nem que para tal tivéssemos de contar com o apoio do Exército colombiano! E foi exatamente o que aconteceu!!!

Sabendo de nossa expedição e zelando para que nossas vidas não se tornassem mercadoria nas mãos dos guerrilheiros das Farc - que são "especializados" em seqüestros, inclusive de vários turistas nestes últimos anos -, o governo destacou um grupo militar para nos escoltar. Tão logo chegamos a Nuquí, pequeno município no litoral da província de Chocó, percebemos onde havíamos entrado: uma região inóspita, acessível apenas por pequenos aviões bimotores e eventualmente por mar. Atrás de nós uma densa selva, no melhor estilo "Jurassic Park"!!! Cartazes com recompensas para criminosos foragidos espalhavam-se pelo salão de desembarque (se é que as precárias instalações pudessem ser chamadas assim) e o calor e a umidade intensos davam o clima de "boas-vindas".

Mas havia paz em nossos corações. Sabíamos que poderíamos viver algo único em nossas vidas. O arco-íris que se formou quando iniciamos nosso pouso foi a confirmação que precisávamos, além das espumas riscando a saída de um rio caudaloso. Basílio Ruy, fotógrafo de gerações do surf brasileiro, o videomaker Marcelo Dada e Silvia Hartmann completavam o time. Na logística estava Pinga, que contatou nosso grande anfitrião, Guilhermo, ou "Memo", proprietário do El Cantil Ecolodge, onde passaríamos nossos próximos dias. Fomos até as margens do rio Nuquí e do mangue partimos com as duas embarcações lotadas de pranchas e malas para cerca de uma hora navegando pela costa selvagem da Colômbia. Na desembocadura do rio ainda passamos por uma revista militar, mas aos poucos, junto com a garoa que nos acompanhava no trajeto, nossos olhos começavam a contemplar o "outro lado da moeda", que tanto buscávamos.

A "civilização" ia ficando para trás. Era a oportunidade de limparmos nossa mente de hábitos tão impregnados de tecnologia. Por quase duas semanas, teríamos apenas poucas horas de energia elétrica fornecida por um gerador local, nenhum acesso à internet ou a outros confortos, como banho quente. Mas por outro lado, nos aguardava muito peixe fresco, sol, chuva, baleias, insetos, novos amigos e o principal em nossa empreitada: ondas... muitas ondas. Num local praticamente virgem e ainda inexplorado, isso bem aqui ao nosso lado, no mesmo continente e a poucas horas de vôo do Brasil. Sim, foi uma surpresa atrás da outra, Memo e Nana (Adriana) com todo o staff do El Cantil e com a fiel presença de nossa escolta militar foram maravilhosos conosco, dando o real retrato de um povo amigo e gentil, dispostos a dar o melhor de si e a mostrar ao mundo o que a Colômbia tem de melhor. Para nós, as ondas foram a cereja no bolo!

A emoção de ter chegado a Pico de Loro, em Cabo Corrientes, navegando por praias desertas e costões tomados pela selva, após ter iniciado todo aquele trajeto com apenas alguns clicks do mouse sobre um destino virtual na tela do computador, é algo único. A materialização de um sonho, de uma visão, é algo que pulsa no íntimo do surfista de alma, do apaixonado pelo surf. É inacreditável até onde podemos chegar na busca por ondas, descobrindo países, culturas, fazendo amigos, viajando em nosso próprio interior. Sim, a Colômbia tem drogas, tem Farc, mas qual o país que não tem suas "drogas", seus conflitos internos, seus próprios "terrorismos" em suas sociedades? Aquele que não tiver que atire a primeira pedra.

Não só de Pico de Loro se faz Nuquí e região. Com um pouco de curiosidade e pesquisa no Google Earth, e com o grande conhecimento que Memo possui da região e arredores, a Colômbia ainda tem muito a oferecer, seja em matéria de surf seja em aventuras numa região que começa a despontar para o ecoturismo. Nossa viagem chegava ao final, voltaríamos, cada um para sua casa, mas com a certeza de que algo especial havia acontecido. Tínhamos vivido emoções intensas entre a selva e o oceano, trazendo aos nossos sentidos aquilo que pulsa dentro de nós: vida!!! Vida no mais puro e literal sentido: selvagem...

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